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Labirinto

Labirinto

título desnecessário

Voltei a passar a noite em claro. Continuo órfão da mais simples forma de paz. Persisto em afundar-me em cenários idílicos, nos quais é possível ver-te, através da luz tímida que a persiana entreaberta deixa passar, deitada ao meu lado nestas noites de Verão. Nesses sonhos despertos, consigo imaginar o cheiro do teu cabelo e o seu toque suave entre os meus dedos.

Todos os dias me apaixono por ti. Todos os dias mais um pouco. Serei louco? Não sei se é verdade que a vida se pode fazer de uma forma mais simples. Mas são 3h51, e continuo a enxergar, sem hesitação.

Só quero sorrir sempre que o teu olhar me fita.

O meu peito inflama quando te vejo chegar. É das partes que mais gosto nos meus dias: a tua aparição. És uma surrealista: mais cedo ou mais tarde, a loucura apoderar-se-ia. Sou um lunático por ti. 

Apenas quero que saibas. Sou um admirador das tua manias, defeitos e feitios. Tu apaziguas-me a alma. A tua mera presença levita todo este ser estranho e recluso perpétuo do Sonho.

Muitas vezes sinto que não me é permitido ser feliz. Que certas escolhas me estão interditas, ou que logo à partida nunca terei qualquer hipótese. Vivo numa constante busca pelo Ideal, pelo equilíbrio existencial. São raras as vezes em que vislumbro tal quimera. Neste momento és tu essa quimera. O tal balanço producente, capaz de reverter o sentido dum furacão. Capaz de parar o tempo e encaixá-lo numa tarde calorosa a beber cervejas numa esplanada.

Estimo-te sobretudo pelo que me fazes sentir, pela vontade de voltar a escrever que espoletas em mim. Nas palavras, nestas mesmas, o meu coração espelha-se e revela-se a si próprio, como se fosse tudo novo.

Quero brindar a este estímulo que tu provocas.

Quero dar-te um beijo e desaparecer, como se se tratasse da última coisa que faria neste mundo.

Quero que sintas o meu coração saltar batimentos sempre que te olho.

Quero sussurrar-te ao ouvido o quão bela e resplandecente és. 

Quero afagar-te o cabelo enquanto adormeces no meu ombro. 

Quero sentir o teu cheiro logo pela manhã. 

Quero que te vejas tal como eu te vejo.

Quero, quero, quero e quero. 

Somente. 

publicado às 06:07

calada da noite

São muitas as noites que passo de olho aberto.

Insisto em escrutinar o que já passou;

persisto em manter-me inconsequentemente desperto;

martirizo-me pelo que não perdurou.

 

Aí reparo na notória ondulação

que o peso morto do meu corpo

provocou no solitário colchão.

 

Deixo a persiana entreaberta

de maneira a que o sol entre sorrateiramente.

Mas mal vejo a luz que te desperta

um cansaço invade-me completamente.

 

Assim que acordo quero voltar a adormecer,

continuar a sonhar sonhos dos quais nunca me lembrarei.

O dia é angustiante logo no renascer

o barulho relembra-me o que sou e o que nunca serei.

publicado às 23:32

madrugada

a noite já vai longa

e continuo à procura de respostas.

são cinco da manhã

e continuo sem sono.

apenas persiste o cansaço.

assomo-me à janela

para ver o que a madrugada tem para oferecer.

pássaros já cantam

e ventos frios sopram na minha face.

uma dormência na perna esquerda

bem me alerta que tenho que mudar de posição.

mas lembro-me do pouco que sinto

em relação à vida.

enrolo um cigarro tardio

e fumo-o num tom taciturno.

consigo acalmar os pensamentos por instantes,

qual rodopio de autocomiseração.

pois sim, sinto pena de mim próprio.

o que mais sentir?

sou recluso do meu modo de ser;

da parca comunicação que pauta a minha existência.

 

sonho ser um garoto mais uma vez;

brincar no meio das ruas da minha vila;

de partir janelas ao ritmo duns pontapés deficientes na bola.

quero voltar a saborear o nojo que era caldo verde na altura.

nunca um pedaço de pão com manteiga

soube tão bem como outrora,

nas tardes lá na vila, nas pausas das futeboladas sem regras.

saudades desse tempo que não volta,

um tempo simples,

sem estar refém do tempo ou dos números ou das responsabilidades ou das escolhas.

que alívio seria voltar…

publicado às 23:30

Ode à calmaria

Estimo e guardo na minha alma

a amargura extenuante

que pauta a eterna calma

e esconde um ser errante. 

 

Faço odes a este meu estado,

sem medos e sem claudicar.

É suposto servir de auxiliar

para outros saberem do meu fado.

 

Não durmo para não acordar -

penso e existo nesta estranha realidade.

Vivendo sempre sem lutar

contra a demência e a passividade.

 

Qual pobre vagabundo

erudito em palavras vagas,

que reporta as suas (des)graças

sempre disperso e moribundo.

 

 

 

publicado às 18:33

Rascunho #2

Ele era alguém à deriva. Não tinha qualquer propósito nem se sentia parte integrante de qualquer coisa. Ostentava no seu sorriso tímido um desconforto existencial. Era como um átomo disperso, solto da magnitude da existência. Desejava transformar o Nada em alguma coisa. Queria sentir. Essa carência de  sentimentos obrigavam-no a guardar uma certa ansiedade que o corroía. Na iminência de implodir, foi escondendo as suas mazelas até não haver mais espaço no sótão da sua inconsciência. Era-lhe difícil distinguir entre o correcto e o errado. Tornou-se num mentiroso. Porque mentia descaradamente de forma a ter qualquer consideração. Era infeliz. Carregava na alma um grito destrutivo, capaz de partir janelas. Queria libertar-se da agonia que a melancolia havia criado, e desenvolvido, com o passar das tormentas .

Era frequente ter momentos de pura lucidez, em que se apercebia dos seus erros. Mas em vez de ouvir a voz autodestrutiva que sempre o acompanhara desde tenra idade, tentava procurar alternativas que lhe aconchegassem o que restava da sua alma. E nesses instantes um optimismo apoderava-se do seu corpo, dando-lhe um qualquer sentimento de crença em si próprio. E assim passava os seus dias, envolto em teorias que o absolvessem das suas incoerências. Escrutinava-se, entendia-se. Mas um certo ódio teimava sempre em recordar-lhe do quão irresponsável ele fora. E continuava  a ser. Porque já entrara num círculo vicioso e persistente, sem qualquer avistamento de saídas de emergência. Só uns meros buracos imprevisíveis que se deixavam notar no seu telhado de vidro o permitiam ver a Luz.

Ninguém sabia deste seu estado. Sentia uma enorme dificuldade em expressar-se junto das pessoas, temendo não ser compreendido, nem mesmo escutado. As repercussões que ele imaginara mantinham-no na sua solidão extenuante. Sentia-se cansado, embora sem aparente razão aos olhos de terceiros. Mas era assim que se sentia. Suplicava silenciosamente por um ouvido que escutasse o que durante anos ele mantivera só para si, o que o consumira como um vulgar animal. A sua pose contrastava com um semblante quase moribundo, funesto e delirante. Ele só queria ser ouvido, como nunca antes se permitiu a ser.

À medida que partilhava as suas amarguras, os seus olhos enchiam-se de lágrimas que ele recusava deixar cair, tal era o seu orgulho. Mas que orgulho desmesurado era aquele, questionei-me. Fazia uma força tremenda para não claudicar; sentia um arrependimento extenuante, que lhe provocava um sufoco como nunca antes tinha visto. Dei por mim envolvido num sentimento extraordinário de compaixão. Ele pedia piedade; o seu maior anseio era ser absolvido dos seus actos de modo a poder viver, tal como uma pessoa normal. Cheguei à conclusão de que ele chegou a este ponto devido à parca comunicação que sempre pautou a sua existência.

 

publicado às 01:15

inquietudes

Acabo os meus dias

querendo ser outra pessoa

ignorando que nessas medidas

desperdiço um qualquer eu, à toa.

 

No horizonte ecoa um grito

dando o mote para a retoma.

As cãibras bem me alertam

mas um desprezo se assoma.

 

Fico aquém das vontades

e resguardo-me no meu canto.

Aí sonho bem alto

mas já não me espanto.

 

No além deposito a réstia de esperança.

Deambulo por caminhos já percorridos

exibindo a minha pouca confiança,

cansado das caras com os mesmo sorrisos.

 

As repetições acumulam-se

e nelas vou-me perdendo.

Desilusões multiplicam-se

dando azo ao meu abatimento.

 

Nada fácil sentir-me pequeno

e querer tudo conquistar.

Lá longe no tempo ameno

o sufoco acaba e consigo respirar.

 

Esse longe é a minha utopia,

um sítio com um qualquer encanto,

que me solta da monotonia

e me faz voar alto. E canto!

publicado às 15:07

da janela para o mundo

da minha janela

vejo todo um mundo

com a ilusão bela de

que lhe pertenço.

da minha janela

admiro os transeuntes ocupados

com as suas vidas

vivendo o hoje e preparando

o amanhã.

no reflexo que a janela me proporciona

vejo um miúdo

que carrega uma mágoa

exaustiva,

desperdiçando o presente

hipotecando o futuro.

nesse mesmo reflexo

uma tristeza sobressai

no seu semblante.

escodendo-se numa complexidade

de emoções e pensamentos.

procura-se no reflexo diante de si,

nas pessoas que passam,

no cigarro que se consome.

sente-se preso no passado

e na melancolia consequente.

deposita uma fé exacerbada 

em sensações antigas;

vive desejando revivê-las,

mas desta vez com todo o fulgor.

o miúdo sou eu;

ou assim creio - já não sei.

 

da minha janela consigo ver o mundo.

ele altera-se e mantém-se intacto a cada instante.

julgo-o inalcansável.

recosto-me na cadeira

e fumo mais um cigarro - é a satisfação momentânea.

publicado às 17:22

(desa)sossego

à minha frente

o cinzeiro enche-se

a cada movimento

singelo

de mão.

torna-se árdua 

a tarefa de controlar

o vício que é

destruir-me 

a cada bafo.

normal é a maneira

como dispo e

exponho o mal 

que corrói o que

ignoro.

pisco o olho esquero

à fácil incoerência

que vive bem perto

entre a razão e a

melancolia.

 

publicado às 17:48

A paisagem que me foge

Já há algum tempo que me sinto assim:

remoto, inerte, desconectado.

Extinto por dentro.

Olvidei quem sou,

na agonia de me reencontrar.

Nas minhas fantasias

deparo-me envolvido na paisagem que me foge,

com quilómetros e quilómetros de verdes espaços,

que me oferecem a serenidade inalcançável.

Perco-me nessa imensidão de promessas distraídas,

que foram enterradas bem fundo

durante as luas que desapareceram timidamente

após as madrugadas despidas de vida.

Em cada novo dia acordo a bocejar,

despido de crenças e estímulos.

Logo quero voltar a dormir,

viver nas quimeras que a minha mente prepara

para me felicitar por mais um dia perdido.

Nos suspiros solto a melancolia que carrego no peito,

como uma âncora prende uma qualquer embarcação

num qualquer cais da nostalgia.

Deambulo pelos trilhos da indiferença,

sem qualquer rumo,

procurando um mísero minuto de paz.

Atrás de mim deixo um rasto de migalhas descrentes,

talvez pela esperança inconsciente que ainda sustento,

em que tu me voltes a encontrar.

publicado às 18:59

Enquanto lá fora chove

Tornou-se fatídica
a procura pelo Ideal;
Infrutífera, dolorosa e banal.
A minha voz estremece face à crítica.

Tento esquivar-me do desconforto
que é ser eu. Na sua suposta essência
inconsequente, melindroso e sem ciência
como um barco perdido em busca de bom porto.

Encontro paz no Nada,
onde o mal não me assola -
nem qualquer pensamento me desconsola -
na minha postura quase inanimada.

Não quero coisa nenhuma!
Uns dizem ser apatia - eu digo desapego.
Nesta espécie de liberdade, sermões não prego
porque sou apenas mais um perdido na vasta bruma.

Tal suposta liberdade pode ser uma camuflagem -
tudo por saciar qualquer ânsia.
Sou um recluso perpétuo dessa substância
e nem sei da coragem
para prosseguir esta viagem.
publicado às 02:20

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